Games: a brincadeira virou coisa séria

O mercado de games mudou bastante desde o surgimento, na década de 1980, deixando o posto de diversão para crianças para tornar-se um mercado multimilionário que chama a atenção de grandes empresas e estúdios de hollywood.

Aquela tecnologia voltada para diversão rápida e sem compromisso do início da década de 1980 mudou completamente e tornou-se um mercado bastante interessante para empresas de tecnologia e entretenimento.

A brincadeira começou, na verdade bem antes, pesquisadores de várias universidades, incluindo o MIT (Massachusetts Institute of Technology) buscavam criar possibilidades para a máquina recém criada e ainda nada popular: o computador. Assim, programaram jogos simples como o jogo da velha ou jogos matemáticos para conhecer as possibilidades da máquina que vinha sendo desenvolvida.

O primeiro console de videogame da história foi o Odyssey, da magnavox, que poderia ser conectado à TV para ser jogado com o joystick conectado à máquina principal. Em seguida começam a surgir novas empresas como a Namco e o Atari, bastante conhecido por nós aqui no Brasil, que traziam jogos rápidos, para distração e sem um enredo envolvente.

Nintendo Entertainment System.  Crédito: Pexels

Só depois a Nintendo pensou diferente e os jogos começaram a se apresentar com narrativas mais sofisticadas e contar histórias mais envolventes. Em Donkey Kong, o personagem Mário surgiu com a meta de salvar a sua namorada do gorila gigante e, por mais simples que pareça, isso foi uma grande evolução, que mudou a história dessa indústria.

A Nintendo reinou por um bom tempo no mundo todo e, com o crescimento dela, surgiu também a SEGA, ambas japonesas, que dominaram o setor durante praticamente toda a década. A SEGA teve sucesso comercial enorme no Brasil com o Master System e depois com o Mega Drive e claro, com seu porco-espinho Sonic, que ainda tem títulos atuais em lançamento.

Em uma tentativa de parceria com a Sony, a Nintendo chegou a projetar um novo videogame, mas por questões contratuais, decidiu seguir sem a parceria no mercado. Surge assim o projeto do Playstation, que colocou a Sony como player desse mercado lucrativo. Pela primeira vez, ao invés de cartuchos, os jogos eram carregados em cds.

Controle do Playstation 4. Crédito: Pexels

O Playstation, até hoje é um sucesso absoluto e recentemente anunciou a versão 5 do console que conquistou o mundo inteiro. Mas o segredo vem, além da boa tecnologia, dos jogos exclusivos lançados para a plataforma. Histórias épicas como God of war têm histórias dignas de cinema comandadas pelo jogador, em sua casa. 

Esse sucesso de grandes jogos e histórias virou o grande diferencial dos consoles atuais. Hoje a Sony carrega os títulos de God Of War, Shadow of Colossus, Uncharted e The Last of Us – que acaba de ser anunciado como série na HBO. Esses títulos possuem uma legião de fãs pelo mundo e carregam histórias bem construídas, que não devem nada a filme nenhum.

The Last of Us – Part II. Crédito: Divulgação

O seu maior concorrente, o XBOX é o mais novo dos consoles, surgido em 2001, foi criação da Microsoft para aproveitar a tecnologia do DirectX para jogos, já oferecida no windows e bastante aceita pelo mercado há anos. Mas ainda assim o console americano só veio ganhar alguma relevância na segunda edição, chamada de 360 por inserir um dispositivo detector de movimentos: o Kinect.

A Microsoft também anunciou a nova edição do console, chamada de Xbox Series X que, tecnologicamente é similar ao PS5 mas traz outros exclusivos no seu catálogo como Forza Horizon, Minecraft, Sea of Thieves, Gears e Halo – que também já virou série há alguns anos. Recentemente a empresa ainda anunciou um serviço de streaming de Jogos, chamado de Game Pass, no qual o assinante tem acesso a cerca de 100 jogos da plataforma sem pagar nada além da assinatura.

Controle Xbox One. Crédito: Pexels

A Nintendo continua em atividade e lançando dispositivos e os nostálgicos jogos do Super Mario, exclusivos da plataforma. Seu diferencial é a mobilidade, o console mais novo da empresa é o Nintendo Switch que possui tela e controles em um pequeno dispositivo e pode ser levado para qualquer lugar.

Títulos multiplataforma como Assassin’s Creed, Tomb Raider, Resident Evil e Diablo, carregam cifras astronômicas para suas produtoras. A Newzoo estima que o setor de games em geral (que inclui os games em dispositivos móveis) crescerá 9,3%, atingindo US$ 159,3 bilhões (os games para dispositivos móveis ficam com quase metade da fatia: US$ 77,2 bilhões e o seu crescimento é estimado em 13,3%).

Assassin’s Creed Valhalla. Crédito: Divulgação

Essas projeções já incluem a crise gerada pela pandemia do coronavírus, que não atingiu o mercado gamer, afinal os jogadores estavam em casa, com mais tempo para jogar e mais jogos para comprar. 

Correndo paralelamente à concorrência dos consoles estão franquias como League of Legends, da Tencent que vêm despertando interesse até do mundo dos esportes por conta de suas competições sempre lotadas e lucrativas. O lucro apenas dessa empresa, considerada a terceira do mundo é em torno de 4 bilhões durante o período da quarentena.

O Brasil ainda engatinha nesse mercado somos o 13° produtor mundial de games, o censo da indústria brasileira de jogos digitais fez um levantamento e chegou à conclusão que foram produzidos 1718 jogos, divididos entre plataformas móveis (43%),  computadores (24%), plataformas de realidade virtual ou aumentada (10%) e consoles (5%).

O antigo Ministério da Cultura buscava incentivar o desenvolvimento de games com editais de apoio mas o último edital foi publicado em 2018 e, desde que perdeu o status de ministério, não houve nenhum movimento mais robusto de incentivo a essa indústria.

Porto Digital – Crédito: Divulgação

Os profissionais autônomos ou empresas pequenas que participam de incubadoras como o Porto Digital, são os principais desenvolvedores de jogos digitais, mas dependem muitas vezes de apoio estrangeiro. Ainda assim algumas empresas persistem no mercado nacional. 

A Daisu Games é uma dessas que desenvolve games de tabuleiro para PCs, dispositivos móveis e consoles. Há 5 anos no mercado, possui jogos distribuídos pelo mundo e o seu principal mercado é a China. Entre os seus títulos, estão disponíveis Akhbeth, Unearth, Infamy e Between Two castles que teve 300 mil donwloads somente na no país asiático. 

Segundo Harry Florêncio, CEO da Daisu “desenvolver jogos no mundo já é um desafio bastante grande” para ele “jogos são uma das atividades mais complexas no meio de entretenimento, porque precisa integrar toda a parte artística e a tecnologia para funcionarem em conjunto e no fim gerar uma experiência harmoniosa. No Brasil, o desafio é ainda maior por falta de acesso a investimentos e mão de obra especializada”.

Between Two Castles. Crédito: Divulgação

Sobre o sucesso inesperado fora do país, ele diz que “o principal público continua sendo o mercado externo, dos Estados Unidos à China. Não é tão comum focar as produções no Brasil, pois quando divulgamos os jogos em inglês, eles conseguem um alcance muito maior. Ainda assim, os nossos jogos são sempre traduzidos para português.”

Alguns profissionais percebem a dificuldade em desenvolver no Brasil e migram para países como o Canadá, que tem umas das grandes produtoras de games do planeta, como a UBISOFT, detentora da marca Assassin’s Creed, que já lançou 7 versões do game, além de livros e um filme. 

Em amplo crescimento e com grandes oportunidades, os games estão se tornando cada vez mais complexos e densos. As narrativas antes infantis e simples ganharam enredos que nem sempre o cinema é capaz de acompanhar, graças à sua quantidade de camadas e possibilidade de caminhos múltiplos a serem percorridos.

Apple Arcade. Crédito: Apple

O mercado mobile anda bastante interessado nesse filão. A Apple anunciou seu serviço de assinatura de jogos, chamado de Apple Arcade, assim como no Xbox Game Pass, o assinante tem acesso a cerca de 100 jogos nos dispositivos da maçã. Não é a primeira vez que a empresa se aventura pelos jogos, inclusive já tentou lançar um console próprio que teve vendas muito baixas e uma vida muito curta.

O google também lançou o seu serviço de jogos, mas diferente das duas empresas, não cobra assinatura mensal, apenas cobra por título jogado com direito a assinatura premium que oferece uma banda de streaming maior. Apple e Microsoft já disponibilizam seu serviço no Brasil, Google ainda não tem previsão.

A Samsung se uniu à Microsoft em seu evento de lançamento Unpacked 2020 e, além de lançar seus novos smartphones Note 20 e Note 20+, além de tablets e acessórios, lançou o serviço de streaming de jogos com integração ao Xbox Game Pass que permite jogar os 100 títulos do serviço nos dispositivos da coreana. 

Unpacked Samsung. Crédito: Divulgação

Ao contrário dos problemas enfrentados pelo cinema e outros serviços durante a pandemia do coronavírus, o mercado de games segue em ascensão e ainda deve apresentar novidades de players como a Nintendo. 

Seja pelo smartphone, pelo PC ou pelo console, o game faz parte da cultura do século XXI e isso tende a crescer, principalmente entre os mais jovens. Os novos consoles da Microsoft e da Sony devem chegar até o fim do ano para aquecer as vendas de Natal e figurar nas listas de desejo de muita gente pelo mundo. Preparemos os cofrinhos (os preços não devem ser nada baixos) e que comecem os jogos, literalmente.

Publicado no Site RG

Marcos Tenório é Designer, Sócio da Kalulu Design&Comunicação, mestre em Design de Artefatos Digitais pela Universidade Federal de Pernambuco e Professor na UNIFG. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *